Femina


Muito antes do princípio dos tempos
Muito antes de começarem a enumerar-se os tempos
Já tínhamos tudo

Tudo aquilo que agora parece impossível
Incrível
Inimaginável

Serpenteava entre nós
Como sabedoria remota e perdida
Todos os segredos do teu ventre

Uma carícia desgarrada e mesquinha:
A noite em que os Pais/Homens se viraram
Contra a liberdade do nosso coração silvestre

A noite escura do massacre
Quando as meninas foram sentenciadas a submeterem-se
Quando as mães foram condenadas à dor do parto
Quando a serpente foi remetida ao inferno

A maldição bíblica da dor primogénita
Toda uma cultura silenciando o corpo
O véu ignorante sobre as gerações
Adormecidas sob a sua própria força

A medicina como controle do corpo
A ginecologia como autoridade indiscutível
Ao contrário, os ciclos naturais
Como burdas hereges antiquadas
Atentando contra os milagres do progresso
Já nada podes saber sobre ti mesma
Simples e tonta mulher cega
Triste imitação do homem poderoso

E no entanto, nada perdemos
No mais profundo e cálido lugar da memória da carne
O ventre que ainda alberga toda a vida humana
A serpente ainda dança
Os nossos corpos ainda nos pertencem
Ingovernáveis e misteriosos

Podemos fazer desta vida a nossa festa
E dos nossos nascimentos
Todos os orgasmos que devemos a nós mesmas

 

– NIÑXS PERDIDXS CONTRA LA ADULTOCRACIA

In “Manual Introductorio a la Ginecologia con Plantas, Pabla Peréz Martin

(Tradução livre)

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